Sunday, August 20, 2006

Bate forte, bate, por toda parte.
Arde, queima, vive.
Não, não se iniba. Não tenha vergonha.
Já se esqueçeram disso, mas continue.
De o seu grito.
Não te entendem?
Você não mente?
Ou se mente, é porque sente.
Então continue batendo, queimando.
Re-inventando o novo do novo, de novo.
Tudo começa na carne.
A carne sente e sente sinceramente.
Sem tentar se conter.
É deixar correr, bater, arder.
Ninguém se lembra mais disso.
Mas eu insisto.
Continue batendo, queimando, sentindo.
Vou ficar aqui, só te ouvindo.

Friday, August 04, 2006

Fragmentos do Abecedário de Deleuze.

CP = Claire Parnet (entrevistadora)
GP = Gilles Deleuze (entrevistado)

C de Cultura

CP: Se se pode abusar um certo tempo do álcool, da cultura não se deve ir além da dose. É até um pouco repugnante. Bem, terminamos com o álcool.
GD: Puxa, estamos indo rápido!
CP: Vamos passar ao C. O C é vasto.
GD: O que é?
CP: C de Cultura.
GD: Sim, por que não?
CP: Você diz não ser culto. Diz que só lê, só vê filmes ou só olha as coisas para um saber preciso: aquele de que necessita para um trabalho definido, preciso, que está fazendo, mas, ao mesmo tempo, você vai todos os sábados a uma exposição, a um filme do grande campo cultural, tem-se a impressão de que há uma espécie de esforço para a cultura, que você sistematiza e que tem uma prática cultural, ou seja, que você sai, faz um esforço, tende a se cultivar e, entretanto, diz que não é culto. Como explica tal paradoxo? Você não é culto?
GD: Não, quando lhe digo que não me vejo, realmente, como um intelectual, não me vejo como alguém culto por uma razão simples: é que quando vejo alguém culto, fico assustado, não fico tão admirado, admiro certas coisas, outras, não, mas fico assustado. A gente nota alguém culto. É um saber sobretudo assustador. Vemos isso em muitos intelectuais, eles sabem tudo, bem, não sei, sabem tudo, estão a par de tudo, sabem a história da Itália, da Renascença, sabem geografia do Pólo Norte, sabem... podemos fazer uma lista, eles sabem tudo, podem falar de tudo. É abominável. Quando digo que não sou culto, nem intelectual, quero dizer algo bem fácil, é que não tenho saber de reserva. Pelo menos não tenho esse problema. Com minha morte, não se precisará procurar o que tenho para publicar, nada, pois não tenho reserva alguma. Não tenho nada, provisão alguma, nenhum saber de provisão, e tudo o que aprendo, aprendo para certa tarefa, e, feita a tarefa, esqueço. De modo que, se dez anos depois, sou forçado, isso me alegra, se sou forçado a me colocar em algo vizinho ou no mesmo tema, tenho de recomeçar do zero. Exceto em alguns casos raros, pois Spinoza está em meu coração, não o esqueço, é meu coração, não minha cabeça, senão... Por que não admiro essa cultura assustadora? Pessoas que falam...
CP: É erudição ou opinião sobre tudo?
GD: Não é erudição, eles sabem falar, primeiro viajaram, viajaram na História, na Geografia, sabem falar de tudo. Ouvi na TV, é assustador, ouvi nomes, então, como tenho muita admiração, posso dizer, gente como Umberto Eco, é prodigioso, o que quer que lhe digam, pronto, é como se apertassem em um botão, e ele sabe, além disso... Não posso dizer que invejo isso. Fico assustado, mas não invejo. O que é a cultura? Ela consiste em falar muito, não posso me impedir de... sobretudo agora que não dou mais aula, estou aposentado, falar, acho cada vez mais, falar é um pouco sujo. É um pouco sujo, a escrita é limpa. Escrever é limpo e falar é sujo. É sujo porque é fazer charme. Nunca suportei colóquios, estive em alguns quando era jovem, mas nunca suportei colóquios. Não viajo. Por que não? Porque... os intelectuais... eu viajaria se... enfim, não. Aliás, não viajaria, minha saúde me proíbe, mas as viagens dos intelectuais são uma palhaçada. Eles não viajam, se deslocam para falar, partem de um lugar onde falam e vão para outro para falar. E, mesmo no almoço, eles vão falar com os intelectuais do lugar. Não vão parar de falar. Não suporto falar, falar, falar, não suporto. Como me parece que a cultura está muito ligada à fala. Nesse sentido, odeio a cultura, não consigo suportá-la. CP: Voltaremos a falar disso, a escrita limpa, a fala suja, pois você foi um grande professor e a solução...
GD: É diferente.
CP: Voltaremos a isso. A letra P está ligada a seu trabalho de professor. Falaremos da sedução. Queria voltar a algo que você evitou, que é seu esforço, a disciplina que você se impõe, mesmo não precisando dela, para ver, por exemplo, nos últimos 15 dias, a exposição de Polcke, no Museu de Arte Moderna. Você vai com freqüência, ou semanalmente, ver um grande filme ou uma exposição de pintura. Você não é erudito, não é culto, não tem admiração por pessoas cultas, como acaba de dizer. A que corresponde tal esforço? É prazer?
GD: Claro, é prazer, enfim, nem sempre, mas penso nessa história de estar à espreita. Não acredito na cultura; acredito, de certo modo, em encontros. E não se têm encontros com pessoas. As pessoas acham que é com pessoas que se têm encontros. É terrível, isso faz parte da cultura, intelectuais que se encontram, essa sujeira de colóquios, essa infâmia, mas não se tem encontros com pessoas, e sim com coisas, com obras: encontro um quadro, encontro uma ária de música, uma música, assim entendo o que quer dizer um encontro. Quando as pessoas querem juntar a isso um encontro com elas próprias, com pessoas, não dá certo. Isso não é um encontro. Daí os encontros serem decepcionantes, é uma catástrofe os encontros com pessoas. Como você diz, quando vou, sábado e domingo, ao cinema, etc., não estou certo de ter um encontro, mas parto à espreita. Será que há matéria para encontro, um quadro, um filme, então é formidável. Dou um exemplo, porque, para mim, quando se faz algo, trata-se de sair e de ficar. Ficar na filosofia é também como sair da filosofia? Mas sair da filosofia não quer dizer fazer outra coisa, por isso é preciso sair permanecendo dentro. Não é fazer outra coisa, escrever um romance, primeiro eu seria incapaz, e mesmo se fosse capaz, isso não me diria nada. Quero sair da filosofia pela filosofia. É isso o que me interessa.

F de Fidelidade

CP: F de Fidelidade. Fidelidade não gera amizade. Tudo isso vem de um mistério muito maior. Com o Gordo e o Magro, e Bouvard e Pecuchet. Vamos passar para a letra F.
GD: Vamos ao F.
CP: Escolhi a palavra Fidelidade. Fidelidade para falar de amizade, já que há 30 anos, é amigo de Jean-Pierre Braunberger. E todos os dias, vocês se telefonam ou se vêem. É como um casal. Você é fiel às suas amizades, é fiel a Félix Guattari, a Jerôme Lindon, a Elie, a Jean-Paul Manganaro, Pierre Chevalier... Seus amigos são muito importantes para você. François Châtelet e Michel Foucault eram seus amigos e você os homenageou como amigos com grande fidelidade. Queria saber se a impressão de a fidelidade estar obrigatoriamente ligada à amizade é correta? Ou será o contrário?
GD: Não há Fidelidade. É só uma questão de conveniência, já que começa com F.
CP: Sim, e o A já foi preenchido.
GD: É outra coisa. A amizade. Por que se é amigo de alguém? Para mim, é uma questão de percepção. É o fato de... Não o fato de ter idéias em comum. O que quer dizer "ter coisas em comum com alguém"? Vou dizer banalidades, mas é se entender sem precisar explicar. Não é a partir de idéias em comum, mas de uma linguagem em comum, ou de uma pré-linguagem em comum. Há pessoas sobre as quais posso afirmar que não entendo nada do que dizem, mesmo coisas simples como: "Passe-me o sal". Não consigo entender. E há pessoas que me falam de um assunto totalmente abstrato, sobre o qual posso não concordar, mas entendo tudo o que dizem. Quer dizer que tenho algo a dizer-lhes e elas a mim. E não é pela comunhão de idéias. Há um mistério aí. Há uma base indeterminada... É verdade que há um grande mistério no fato de se ter algo a dizer a alguém, de se entender mesmo sem comunhão de idéias, sem que se precise estar sempre voltando ao assunto. Tenho uma hipótese: cada um de nós está apto a entender um determinado tipo de charme. Ninguém consegue entender todos os tipos ao mesmo tempo. Há uma percepção do charme. Quando falo de charme não quero supor absolutamente nada de homossexualidade dentro da amizade. Nada disso. Mas um gesto, um pensamento de alguém, mesmo antes que este seja significante, um pudor de alguém são fontes de charme que têm tanto a ver com a vida, que vão até as raízes vitais que é assim que se torna amigo de alguém. Vejamos o exemplo de frases! Há frases que só podem ser ditas se a pessoa que as diz for muito vulgar ou abjeta. Seria preciso pensar em exemplos e não temos tempo. Mas cada um de nós, ao ouvir uma frase deste nível, pensa: "O que acabei de ouvir? Que imundicie é essa?" Não pense que pode soltar uma frase destas e tentar voltar atrás, não dá mais. O contrário também vale para o charme. Há frases insignificantes que têm tanto charme e mostram tanta delicadeza que, imediatamente, você acha que aquela pessoa é sua, não no sentido de propriedade, mas é sua e você espera ser dela. Neste momento nasce a amizade. Há de fato uma questão de percepção. Perceber algo que lhe convém, que ensina, que abre e revela alguma coisa.
CP: Decifrar signos.
GD: Exatamente. Disse muito bem. É só o que há. Alguém emite signos e a gente os recebe ou não. Acho que todas as amizades têm esta base: ser sensível aos signos emitidos por alguém. A partir daí, pode-se passar horas com alguém sem dizer uma palavra ou, de preferência, dizendo coisas totalmente insignificantes. Em geral, dizendo coisas... A amizade é cômica.

(O Abecedário de Deleuze está disponível na íntegra no site www.oestrangeiro.net)

Sunday, July 09, 2006

Carrego do meu lado direito a dor.
Do meu lado esquerdo carrego todo o peso do meu mundo.
Qual a distância que separa, aqueles que vencem daqueles que perdem?
Carrego as asas dos anjos e tento transpor essa distância.
Como eu poderia ter feito tudo certo?
Na verdade nada fiz.
Repito as mesmas palavras, desejo as constelações.
Mas só carrego os buracos negros em meu peito.
Procurando por algum sentido?
Não há sentido.
Eu que já não sou mais eu, não procuro mais um sentido.
Apenas carrego o sono tão desejado. Que seja eterno!

Wednesday, July 05, 2006

Comentário sobre a entrevista de Theodor W. Adorno.
Por: Marci Kühn

Não faz muito tempo Marx matou a filosofia, dizendo que estava na hora de colocá-la em prática e parar de falar e pensar. Havia chegado o limite. Há muito tempo chegou o limite, as bibliotecas estão cheias de teorias bonitas, e as nossas mentes repletas de críticas ácidas, no entanto nosso corpo continua enferrujado de ócio.
Pergunto-me qual a importância do falar em contraposição ao agir. O viés da filosofia no seu começo foi a compreensão do mundo, saber de onde viemos, para onde vamos, o que esta ao nosso redor, até o momento em que se descobriu que o que estava ao nosso redor eram homens jugando homens e todo um sistema maluco que temos de viver. A compreensão continuou a compreender todos os limiares e as intempéries do nosso sistema, do nosso mundo e ainda sim não colocamos em prática o óbvio. Aprendemos e falamos, não agimos.
Adorno nos mostrou a importância do agir. Com certeza com o afastamento das suas não-ações.
“Mas nunca eu disse algo que se dirigisse diretamente a ações práticas”.
Como podemos aplicar teorias para que as coisas sejam diferentes se nem quem as concebeu consegue lutar por esses ideais?
O agir tem tanta importância quanto o pensar, quanto o falar. É necessário exemplificar o que dizemos, mostrar que as teorias realmente funcionam e ainda, mais do que falar, o agir tem um significado muito maior do que prevemos. Dar exemplos. Se quisermos que as pessoas leiam mais, temos de ler então, comentar e conversar sobre os livros. Fazer nós mesmos para que se veja quão possível é o que dizemos.
Neste quesito o nosso querido Adorno falhou. Falhou por não demonstrar acreditar no que ele mesmo disse, por provar mais uma vez que tudo que se luta contra é mais forte.
Nega estar em uma torre de marfim intelectual que está. Quer que possamos entender que a teoria vem antes da prática. O pensamento é importante, é ele quem consegue nos fazer imaginar as conseqüências das ações e o sacrifício que se fará para alcançar algum objetivo. Mas ainda me pergunto, quando será a hora certa para que a prática seja mera reprodução da teoria? Aliás, algum dia isso será possível? Ultrapassar as incertezas, os sentidos, as vontades, as morais, a rotina, a teoria não poderá nunca fazer isso, só se pode esperar e assistir os erros que nossa mente fez e o que os outros compreenderam do que pensamos, assistir uma nova teoria nascer.
Essa relação de poder teórico nos corrompe tanto quanto a relação de poder prático que temos dos governos e pequenos poderes. Confiamos tanto em professores, teóricos, pesquisadores e cientistas que simplesmente seguimos coisas que nem eles mesmos pensariam em confiar. Os jovens, como exemplifica a entrevista com o Adorno, são os pequenos ratinhos de laboratório dos cientistas renomados, não pensamos nossas teorias, não pensamos nunca, aliás, seguimos regras de outros como loucos, nos jogamos dos abismos que nos mandam nos jogar e as poucas vezes que paramos para pensar cobramos mero apoio.
Somos cegos. Lemos e ainda sim somos cegos.
Tirando o fato da estupidez da jovialidade nos afetar, Adorno clama a reflexão como mudança do mundo. Pergunto-me, não seria reflexão uma fase para a mudança de consciência e doravante de ação? E se a sua teoria não foi feita para prática então não podemos agir esta reflexão, não podemos mudar o hábito de ver diferente, de agir diferente.
A mera reflexão, e o poder que demos para a razão, é nada mais do que um vazio intelectual.
Vamos continuar cegos e convencidos de que saber muda tudo?
“Essa pergunta me ultrapassa”. Como disse Theodor Adorno.

Monday, June 05, 2006

''A filosofia muda o mundo ao manter-se como teoria''

Entrevista de T. Adorno

Spiegel: Senhor professor, há duas semanas o mundo ainda parecia em ordem...
Adorno: Não para mim.
Spiegel: ... O senhor dizia que sua relação com os estudantes não foi afetada. Nas suas atividades de ensino haveria debates fecundos e objetivos, sem perturbações privadas. No entanto, agora o senhor suspendeu suas aulas.
Adorno: Não as suspendi por todo o semestre, só temporariamente. Em algumas semanas pretendo retomá-las. É o que todos os colegas fazem quando há invasões de salas.
Spiegel: Houve violência contra o senhor?
Adorno: Não violência física, mas fizeram tanto barulho que a aula tornou-se impraticável. Isso claramente foi planejado.
Spiegel: O senhor sente-se incomodado apenas pela forma como agora o atacam os estudantes – que antes o apoiavam – ou também o incomodam os objetivos políticos? Afinal, antes havia concordância entre o senhor e os rebeldes.
Adorno: Não é nessa dimensão que estão em jogo as divergências. Há dias declarei numa entrevista à televisão que, embora eu tivesse elaborado um modelo teórico, não poderia ter imaginado que as pessoas quisessem realizá-lo com bombas. Essa frase foi citada inúmeras vezes, mas necessita muito de interpretação.
Spiegel: Como o senhor a interpretaria hoje?
Adorno: Jamais ofereci em meus escritos um modelo para quaisquer condutas ou quaisquer ações. Sou um homem teórico, que sente o pensamento teórico como extraordinariamente próximo de suas intenções artísticas. Não é agora que eu me afastei da prática, meu pensamento sempre esteve numa relação muito indireta com a prática. Talvez ele tenha tido efeitos práticos em conseqüência de alguns temas terem penetrado na cons ciência, mas nunca eu disse algo que se dirigisse diretamente a ações práticas. Desde que ocorreu em 1967 em Berlim um circo contra mim, determinados grupos de estudantes insistiram em forçar-me à solidariedade e exigiram ações práticas da minha parte. Isso eu recusei.
Spiegel: Mas a teoria crítica não quer deixar as condições tal como se encontram. Isso os estudantes esquerdistas aprenderam do senhor. Mas agora, senhor professor, dá-se a sua recusa da prática. É verdade, então, que o senhor cultiva uma ''liturgia da crítica'', como afirmou Dahrendorf?
Adorno: Em Dahrendorf ressoa uma despreocupada convicção: a de que, se apenas melhorarmos as coisas aos poucos, talvez tudo venha a melhorar. Não posso reconhecer isso como premissa. Nas organizações estudantis de esquerda, contudo, defronto-me sempre com a exigência de entregar-se, de ir junto, e a isso eu venho resistindo desde muito jovem. E nisso nada se modificou em mim. Tento exprimir aquilo que reconheço e que sinto. Mas não posso acomodá-lo ao que se fará disso e ao que disso resultará.
Spiegel: Ciência como torre de marfim, portanto?
Adorno: Não tenho temor algum da expressão torre de marfim. Essa expressão já teve dias melhores, quando Baudelaire a empregou. Contudo, já que o senhor fala de torre de marfim: creio que uma teoria é muito mais capaz de ter conseqüências práticas em virtude da sua própria objetividade do que quando se submete de antemão à prática. O relacionamento infeliz entre teoria e prática consiste hoje precisamente em que a teoria se vê submetida a uma pré-censura prática. Tenta-se, por exemplo, proibir-me de exprimir coisas simples, que mostram o caráter ilusório de muitas propostas de determinados estudantes.
Spiegel: Mas é bem claro que esses estudantes têm muitos seguidores.
Adorno: Sempre volta a ocorrer que um pequeno grupo seja capaz de exercer obrigações de lealdade às quais a grande maioria dos estudantes de esquerda não conseguem se furtar. No entanto, quero repetir: eles não podem invocar modelos de ação que eu lhes tivesse dado para depois distanciar-me deles. Não faz sentido falar desses modelos.
Spiegei: Seja como for, ocorre que os estudantes referem-se, às vezes direta e outras vezes indiretamente, à sua crítica da sociedade. Sem as suas teorias talvez nem tivesse surgido o movimento de protesto estudantil.
Adorno: Isso eu não quero negar; apesar disso, tenho dificuldade para captar essa relação. Estou disposto a acreditar que a crítica à manipulação da opinião pública, que vejo como inteiramente legítima também na forma de demonstrações, não teria sido possível sem o capítulo sobre ''indústria cultural'' que Horkheimer e eu publicamos na Dialética do Iluminismo. Mas acredito que muitas vezes a relação entre teoria e prática é representada de modo demasiado sumário. Quando se ensinou e publicou durante 20 anos como eu, com essa intensidade, isso acaba mesmo passando para a consciência geral.
Spiegel: E assim também para a prática, não?
Adorno: Pode ocorrer – mas não necessariamente. Nos nossos trabalhos o valor das chamadas ações isoladas fica extremamente limitado pela ênfase na totalidade social.
Spiegel: Mas como o senhor quer modificar a totalidade social sem ações isoladas?
Adorno: Essa pergunta me ultrapassa. Diante da questão ''que fazer'' eu na realidade só consigo responder, na maioria dos casos, ''não sei''. Só posso tentar analisar de modo intransigente aquilo que é. Nisso me censuram: já que você exerce a crítica, então é também sua obrigação dizer como se deve fazer melhor as coisas. Mas é precisamente isso que eu considero um preconceito burguês. Verificou-se inúmeras vezes na história que precisamente obras que perseguiam propósitos puramente teóricos tenham modificado a consciência, e com isso também a realidade social.
Spiegel: Nos seus trabalhos o senhor distinguiu entre a teoria crítica e quaisquer outras teorias. Ela não deve ater-se à mera descrição empírica da realidade mas especificamente introduzir na reflexão a ordenação correta da sociedade.
Adorno: Neste ponto tratava-se da crítica ao positivismo. Preste atenção no que eu disse: introduzir na reflexão. Veja que nessa sentença nada me permite atrever-me a dizer como então se agirá.
Spiegel: Mas uma vez o senhor afirmou que a teoria crítica quer ''erguer a pedra sob a qual incuba o monstro''. Se agora os estudantes jogam essa pedra – isto é tão incompreensível?
Adorno: Incompreensível certamente não é. Creio que o ativismo basicamente se deve ao desespero, porque as pessoas sentem quão pouca força têm para modificar a sociedade. Mas estou igualmente convencido de que essas ações isoladas estão condenadas ao fracasso, como se viu na revolta de maio na França.
Spiegel: Se então não há sentido nas ações isoladas, ficaremos apenas com a ''impotência crítica'', da qual a organização estudantil de esquerda (SDS) o acusa?
Adorno: O poeta Grabbe tem uma sentença: ''Pois nada senão o desespero pode salvar-nos''. Isto é provocador, mas nada tem de tolo. Não vejo como condenar que se seja desesperançado, pessimista, negativo no mundo em que vivemos. Mais limitados serão aqueles que se aferram compulsivamente ao otimismo do oba-oba da ação direta, para obter alívio psicológico.
Spiegel: Seu colega Jürgen Habermas, que também é um defensor da teoria crítica, acaba de conceder, num artigo, que os estudantes mani festaram ''senso de provocação com muita fantasia'', e que conseguiram de fato mudar alguma coisa.
Adorno: Nisso eu concordaria com Habermas. Creio que a reforma universitária, da qual ainda não sabemos no que vai dar, nem sequer teria sido iniciada sem os estudantes. Creio que a atenção generalizada aos processos de emburrecimento que dominam a sociedade contemporânea jamais teria ganho forma sem o movimento estudantil. E também acredito – para citar algo bem concreto – que foi somente em conseqüência da investigação sobre a morte do estudante Benno Ohnesorg [em 1967, na repressão a uma manifestação contra o ditador persa, xá Reza Pahlevi] que essa história macabra veio a atingir a consciência pública. Com isso quero dizer que em absoluto não me fecho a conseqüências práticas, quando são transparentes para mim.
Spiegel: E quando foram transparentes para o senhor?
Adorno: Participei de manifestações contra as leis de emergência e, no caso da reforma da legislação penal, fiz o que podia. Mas é inteiramente diferente se eu faço coisas desse tipo ou se participo de uma prática realmente um tanto insana e jogo pedras contra institutos universitários.
Spiegel: Como o senhor avaliaria se uma ação faz sentido ou não?
Adorno: Em primeiro lugar, a decisão depende em grande medida da situação concreta. Depois, tenho as mais graves reservas contra qualquer uso da violência. Eu teria que renegar toda a minha vida – a experiência sob Hitler e o que observei no stalinismo – se não me recusasse a participar do eterno círculo da violência contra a violência. Só posso conceber uma prática transformadora dotada de sentido como uma prática não violenta.
Spiegel: Também sob uma ditadura fascista?
Adorno: Certamente haverá situações em que isso se apresente de outro modo. A um fascismo real só se pode reagir com violência. Nisso não sou de modo algum rígido. No entanto, nego-me a seguir aqueles que, após o assassinato de incontáveis milhões nos estados totalitários, ainda preconizem a violência. É neste limiar que se dá a separação decisiva.
Spiegel: Foi superado esse limiar quando os estudantes tentaram impedir, mediante ações de sit-in, a distribuição de jornais da cadeia [conservadora] Springer?
Adorno: Esse tipo de manifestação eu considero legítimo.
Spiegel: Foi superado esse limiar quando estudantes perturbaram a sua aula com barulho e exibições sexuais?
Adorno: Justo comigo, que sempre me voltei contra toda sorte de repressão erótica e contra tabus sexuais! Submeter-me ao ridículo e atiçar contra mim três mocinhas fantasiadas de hippies! Achei isso abo minável. O efeito hilariante que se consegue com isso no fundo não passava da reação do burguesão, com seu riso néscio quando vê uma garota com os seios nus. Naturalmente essa imbecilidade era calculada.
Spiegel: Será que esse ato insólito pretendia confundir suas teorias?
Adorno: Parece-me que nessas ações contra mim importa menos o conteúdo das minhas aulas; tudo indica que para a ala extrema é mais importante a publicidade. Essa ala sofre do medo de cair no esquecimento. Com isso torna-se escrava da sua própria publicidade. Uma aula como a minha, que conta com uma presença de cerca de 1000 pessoas, evidentemente é um cenário maravilhoso para a propaganda ativista.
Spiegel: Pode também esse ato ser interpretado como ação da desesperança? Talvez esses estudantes se sentissem abandonados por uma teoria da qual pelo menos acreditavam que pudesse converter-se em prática modificadora da sociedade?
Adorno: Os estudantes nem tentaram discutir comigo. O que tanto dificulta meu relacionamento com os estudantes hoje é a primazia da tática. Meus amigos e eu temos a sensação de não passarmos de objetos em planos bem calculados. A idéia do direito das minorias, que afinal é cons titutivo da liberdade, não desempenha mais papel algum. As pessoas recusam-se a enxergar a objetividade da coisa.
Spiegel: E diante desses constrangimentos o senhor abre não de uma estratégia defensiva?
Adorno: Meu interesse dirige-se cada vez mais à teoria filosófica. Se eu desse conselhos práticos, como em certa medida fez Herbert Marcuse, isso seria feito à custa da minha produtividade. Pode-se dizer muito contra a divisão do trabalho, mas já Marx, que na sua juventude a atacou com a maior veemência, reconheceu mais tarde que sem ela não seria possível.
Spiegel: Então o senhor decidiu-se pela parte teórica, para os outros fica a parte prática; e o senhor já está empenhado nisso. Não seria melhor que a teoria refletisse simultaneamente a prática? E com isso também as ações presentes?
Adorno: Há situações em que eu faria isso. No momento, contudo, parece-me muito mais importante começar a refletir sobre a anatomia do ativismo.
Spiegel: De novo para a teoria, portanto?
Adorno: No momento eu atribuo à teoria uma posição superior. Já toquei – sobretudo na Dialética negativa – nessas questões muito antes de ocorrer esse conflito.
Spiegel: Na Dialética negativa encontramos a constatação re signada: ''A filosofia, que já parecera superada, mantém-se em vida porque o instante da sua realização foi perdido''. Uma filosofia como essa – externa a todos os conflitos – não se converte em ''preciosismo''? Uma pergunta que o senhor mesmo se propôs.
Adorno: Continuo a pensar que é justamente sob os constrangimentos práticos de um mundo funcionalmente pragmatizado que devemos manter a teoria. E também não é pelos eventos recentes que serei levado a desviar-me do que escrevi.
Spiegel: Até agora, como formulou seu amigo Habermas, a sua dialética abandonou-se nos ''pontos mais negros'' da resignação à ''esteira destrutiva da pulsão de morte''.
Adorno: Eu preferiria dizer que é o apego compulsivo ao positivo que provém da pulsão de morte.
Spiegel: Seria então a virtude da filosofia encarar de frente o negativo, mas não invertê-lo?
Adorno: A filosofia não pode, por si só, recomendar medidas ou mudanças imediatas. Ela muda precisamente na medida em que permanece teoria. Penso que seria o caso de perguntar se, quando alguém pensa e escreve as coisas como eu faço, se isso não é também uma forma de opor-se. Não será também a teoria uma forma genuína da prática?
Spiegel: Não haverá situações, como por exemplo na Grécia [sob ditadura militar] em que o senhor, para além da reflexão crítica, apoiaria ações?
Adorno: É evidente que na Grécia eu admitiria toda sorte de ações. Lá reina uma situação totalmente diferente. Mas ficar em lugar seguro recomendando aos outros que façam revolução tem algo de tão ridículo que chega a ser constrangedor.
Spiegel: O senhor continua a ver, portanto, como a forma mais significativa e necessária da sua atividade na República Federal Alemã fazer progredir a análise das condições da sociedade?
Adorno: Sim, e mergulhar em fenômenos singulares muito determinados. Não me envergonho de tornar público que estou trabalhando em um grande livro de estética.

ADENDO: UMA INTERVENÇÃO DE ADORNO1
Contra as leis de emergência
Um não-jurista pode dizer algo sobre a proposta de leis de emergência na consciência de que a questão não é jurídica, mas realmente social e política. Embora outras nações tenham leis análogas, que no papel não se apresentam em nada mais humanas, a situação alemã é de tal modo diferente que disso não se pode derivar qualquer justificativa para essa proposta.
O que ocorreu no passado depõe contra o plano (...), a começar pelo Parágrafo 48 da Constituição de Weimar. Ele permitiu que a demo cracia fosse entregue às intenções autoritárias do senhor von Papen. Leis como essas abrigam, entre nós, tendências regressivas, à diferença da Suiça, por exemplo, em que a democracia penetrou na vida do povo de maneira incomparavelmente mais substancial. Ao contrário do que alguns nos atribuem, não é preciso estar carregado de histeria política para temer aquilo que aí se anuncia. Já o governo atual e seus predecessores demons traram há anos uma atitude perante a Constituição que permite esperar algo para o futuro. Por ocasião do chamado caso [da revista] Spiegel, o falecido chanceler Adenauer falava de um caso terrível de traição nacional, que nos tribunais resultou em nada. Do lado do governo houve quem tivesse o cinis mo de declarar que os órgãos de proteção do Estado não poderiam andar para cima e para baixo com a Constituição debaixo do braço. A expressão ''um pouco fora da legalidade'' foi incorporada por aquele humor popular que não se deixa fazer de criancinha.
Com uma tradição como essa, quem não desconfia de nada é porque não quer ver. As tendências restauradoras, ou como quer que as chamemos, não se tornaram mais fracas, mas, pelo contrário, fortaleceram-se. Nossa República Federal nem mesmo fez algo sério em relação ao seqüestro de pessoas perpetrado por agentes sul-coreanos. Só um otimismo extremo poderia esperar das leis de emergência outra coisa do que a continuidade dessa tendência, só porque são formuladas com tanta conside ração de direito público. A língua inglesa conhece uma expressão que fala de profecias que se cumprem a si mesmas. É o que ocorre com o estado de emergência. O apetite aumenta com o comer. Tão logo se esteja seguro de quanto se pode abranger com as leis de emergência se achará a oportunidade de pô-las em prática.
Esta é a verdadeira razão pela qual devemos protestar do modo mais incisivo contra essa situação, em que o esvaziamento da democracia, que já se encontra em curso, ainda por cima seja legalizado. Será tarde demais quando as leis permitirem deixar sem ação aquelas forças das quais se poderia esperar que impedissem no futuro o abuso: exatamente o que o abuso não permitirá acontecer. Deve-se fazer oposição no âmbito público mais amplo possível às leis de emergência, em nome da suspeita de que aqueles que as propõem tenham por elas especial simpatia. A circunstância de que a simpatia pelo estado de emergência não é casual, mas exprime uma poderosa tendência social, não deveria diminuir a oposição à proposta, e sim aumentá-la.

Notas
* ''Die Philosophie ändert, indem sie Theorie bleibt. Gespräch mit Theodor W. Adorno''. Entrevista à revista Der Spiegel, n.o 19, 1969. Tradução de Gabriel Cohn. Publicado anteriormente no Caderno ''Mais!'' da Folha de S. Paulo, 31.08.2003.
1 Na entrevista, Adorno refere-se à sua participação nos protestos contra a proposta de leis de emergência na então República Federal da Alemanha. Como exemplo da sua atuação nesse caso, e também do modo como esse intelectual supostamente alheio às questões palpáveis do dia-a-dia, na realidade não se furtava a manifestar-se em público, junta-se aqui o texto de fala sua em manifestação realizada em Frankfurt, em maio de 1968. (A propósito: no tocante à referência de Adorno ao Artigo 48 da Constituição de Weimar, que permitia ao presidente da recém-fundada República suspender garantias e instaurar o estado de emergência, encontra-se boa informação em Lua Nova, n.o 24/1991). [Nota do tradutor]

Publicado em Lua Nova no.60 São Paulo 2003.
(Comentarei sobre essa entrevista no próximo post.)

Monday, May 15, 2006

(Como estou sem tempo para elaborar novos textos, resolvi postar parte de um trabalho de sociologia que eu fiz. A discussão desse texto, gira em torno da obra de Emilé Durkheim.)

Problematizar o conceito "comunidade" no mundo contemporâneo.

Cada vez mais vemos a palavra comunidade sendo usada erroneamente para definir um grupo de pessoas agrupadas em uma relação de solidariedade negativa, ou seja, prevalece a ligação das pessoas as coisas, e o principal objetivo é conquistar um objeto externo seja ele concreto ou abstrato. No mundo atual, a busca por essa unidade se faz presente, frente a insegurança, incerteza e a falta de perspectiva gerada pelo sistema de produção capitalista e a velocidade com que as informações se movimentam. A palavra comunidade, que antes era usada para designar um grupo de pesoas que viviam em estado de "entendimento" natural, uma idéia que não foi construída, mas como diria Heidegger, "sempre esteve lá" pronta para ser usada, hoje perdeu esse significado pois esse "entendimento" é construído como uma forma de conquistar algo e questionar os valores dessa comunidade, pois com a velocidade das informações as barreiras construídas em torno dessa comunidade são rompidas, fazendo com que outras formas de organização sejam conhecidas. O ato de conhecer, contemplar e tentar controlar esse "entendimento" descaracteriza o conceito sociológico de comunidade.
A necessidade de pertencer à algum grupo, de ter uma identidade, é cada vez mais frequente em um mundo que se movimenta rapidamente (técnologia, comunicação, etc). A comunicação veloz rompe os muros dessa comunidade e faz com que os membros que pertencem a ela, se tornem seres conscientes e críticos em relaçao a mesma, descaracterizando-a. Esses membros questionando a comunidade, inventam uma nova forma de se sentirem protegidos, mas que não é mais a comunidade e sim uma identidade de grupo como disse Hobsbawn:
"Precisamente quando a comunidade entra em colapso, a identidade é inventada"
No filme "A Comunidade", podemos claramente ver que a relação dos indivíduos com essa comunidade, é uma relação construída que tem como objetivo único a conquista e divisão do dinheiro herdado por um dos membros. Eles constroem a identidade do grupo, não há um "entendimento" natural, há um objetivo de todos que é o mesmo. A solidariedade é mecânica, onde o direito repressivo reina, pois aqueles que tentam se desligar do grupo são reprimidos com a morte, os vínculos são frágeis, pois as pessoas pertencentes ao grupo não estão ligadas entre si, e sempre quando um membro do grupo se aproxima do objeto desejado (dinheiro), ele rapidamente tenta se desligar dos outros membros. O filme é um retrato das relações contemporâneas, pois as comunidade, ou melhor dizendo, os grupos sociais com uma mesma identidade, quase sempre se organizam da mesma forma que o grupo do filme, como por exemplo as associações de bairro.

Monday, April 10, 2006


Desde que sou capaz de pensar, que me faz feliz a canção - entre a montanha e o vale profundo - a história de duas lebres que se empanturram de grama, foram abatidas pelo caçador, e ao constatarem que ainda estavam vivas, saíram correndo. Porém, só muito mais tarde eu compreendi a lição aí contida: a razão só pode resistir no desespero e no excesso; é preciso o absurdo para não se sucumbir à loucura objetiva. Deve-se fazer como as duas lebres. Quando o tiro vem, cair fingindo de morto, juntar todas as suas forças e refletir, e, se ainda se tiver fôlego, dar o fora. A capacidade para o medo e a capacidade para a felicidade são o mesmo: a abertura ilimitada, que chega à renúncia de si, para a experiência, na qual o que sucumbe se reencontra. O que seria a felicidade que não se medisse pela incomensurável tristeza com o que existe ? Pois o curso do mundo está transtornado. Quem por precaução a ele se adapta, tornar-se por isso mesmo um participante da loucura, enquanto só o excêntrico conseguiria aguentar firme e oferecer resistência a absurdidade. Só ele seria capaz de refletir sobre o ilusório do desastre, a irrealidade do desespero, e de se conscientizar não só de que ele ainda vive, mas de que ainda há vida.

Wednesday, March 08, 2006

We accept you, one of us!
O pesadelo estético e o espetáculo do capital.
(Givago Oliveira & Viny Rodrigues)


O anão Hans se apaixona por bela trapezista de circo que, ao saber que ele herdou uma fortuna, planeja, com o amante Hercules, se apossar da sua herança. Fingindo corresponder ao amor de Hans, ela se casa com ele e tenta envenená-lo. Ao saber do plano criminoso, os amigos de Hans, figuras grotescas do circo, os "monstros" do título, decidem vingá-lo. A trama toda ocorre num circo. Desta vez, Browning (que dirigiu o clássico Drácula, com Bela Lugosi), trata do grotesco e do preconceito para com homens e mulheres com aberrações físicas, verdadeiros fenômenos circenses, objeto da curiosidade e pavor do publico. O horror de Freaks é o horror do humano grotesco, da figura aberrante e deformada. Mas o curioso é que, no filme, são tais figuras grotescas que expressam laços de sociabilidade e de valor humanos. Os supostos homens "normais", como a trapezista e seu amante, exemplos de beleza e força física, representam, por outro lado, a degradação de caráter humano, imersos em trapaças e preconceitos contra o diferente e o anormal. Na verdade, no mundo do capital, o normal é que se torna verdadeiramente grotesco. Produzido em 1932, em plena depressão capitalista, com seus milhões de desempregados nos EUA, e no auge do furor fascista na civilizada Europa ocidental, Freaks parece utilizar o grotesco como critica da sociabilidade estranhada do mundo burguês.
Durante as bodas de Hans e Cleopatra, os freaks aceitam a introdução da noiva normal em seu círculo através de um ritual, fazendo passar uma taça de champanhe da qual todos têm de beber misturando suas salivas e gritando: "Uma de nós! Uma de nós!". Contudo, a noiva só lhes tem horror, e os humilha beijando Hercules e não Hans, quebrando a taça que o anão leva de pé sobre a mesa até sua boca: ela abandona a festa gritando todo o nojo que sente daquelas "aberrações". Os freaks começam, então, a suspeitar das intenções casamenteiras de Cleopatra. E quando Hans mostra sintomas de envenenamento, eles passam a vigiar as barracas de Cleopatra e de Hercules, seguindo os passos deles, descobrindo seus planos e preparando uma vingança brutal, desencadeada de maneira assustadora durante uma noite de tempestade.

Se situarmos Freaks na organização social do mundo pós-moderno, podemos interpretá-lo como uma crítica clara ao modo de produção capitalista e ao modo como as relações sociais se desenvolvem nesse espetáculo. Se no mundo capitalista, o qualitativo é substituido pelo quantitativo, e o valor de uso pelo valor de troca, e toda a mediação das relações é feita através do mercado que tudo coisifica. No filme podemos identificar o qualitativo com as aberrações humanas que apesar de suas deformidades, eram os únicos que de alguma forma se relacionavam através do que podemos chamar de "valor de uso humano" ou seja, dando importância ao valor real do outro. Os personagens normais, aqueles sem deformações físicas, seriam o nosso quantitativo, nosso "valor de troca humano", aqueles cujo o ter é mais importante do que o ser, e que a normalidade serve de máscara para a moral torpe e deturpada, são aqueles que coisificam o anão Hans e o transformam apenas em mercadoria para a acumulação de capital. Freaks é uma analogia sobre o mundo invertido que estava em constante construção desde o fim da sociedade feudal. Nada mais inteligente do que situar a história em um circo de horrores, pois o que o desenvolver do capitalismo, até os dias de hoje, nos mostra sua fase mais cruel e ao mesmo tempo sofisticada. O espetáculo no qual a lógica da mercadoria está inserida em quaisquer tipos de relações e a ecônomia se tornou algo auto-suficiente, que rege a nossa vida.
Freaks é sem dúvida um filme atual que deve ser assistido e pensado tanto do ponto de vista natural, quanto do ponto de vista histórico social.

Wednesday, March 01, 2006


Autonomia.
Cartola

É impossível nesta primavera, eu sei.
Impossível, pois longe estarei.
Mas pensando em nosso amor, amor sincero.
Ai! se eu tivesse autonomia.
Se eu pudesse gritaria.
Não vou, não quero.
Escravizaram assim um pobre coração.
É necessário a nova abolição.
Pra trazer de volta a minha liberdade.
Se eu pudesse gritaria, amor.
Se eu pudesse brigaria, amor.
Não vou, não quero.

(Poucos homens entenderam tão bem e de forma tão simples, a cruel realidade do mundo)

Friday, February 10, 2006

Por um materialismo iconoclasta.

Viny:
Nunca entendi direito o que você quer dizer com:
Por um Materialismo Iconoclasta.
O materialismo em si já não é iconoclasta? Só o fato dele ser uma leitura crítica do real, já não o faz iconoclasta?

Cláudio R. Duarte (Militante Imáginário):
Viny,
Minha idéia de iconoclastia, de "destruir imagens", é a de triturar nossos ídolos, tudo que se cristaliza alienadamente em imagem e que se volta fantasmaticamente contra nós mesmos. Mas isso não quer dizer o fim da imaginação. Ao contrário. Na sua cruzada contra o espírito, a especulação, a imaginação, o materialismo foi sempre tributário do que meramente existe (daí por exemplo a "teoria do reflexo" do marxismo, da teoria como pura e perfeita cópia "objetiva" do real). O "realismo socialista", por exemplo, é essa forma de materialismo na estética, que erigiu a realidade existente em dogma a ser respeitado, através da sua cópia ostensiva, onde já não havia lugar para efeitos de estranhamento ou para a criação de um outro mundo. A idéia de um materialismo iconoclasta então seria "dialética", no sentido que almeja "estilhaçar" as imagens do real existente, que residem lá no fundo de nossa mente, em nosso modo de vida burguês, e que nos dão segurança de que esta é a única forma de vida possível. Mas para destruir isso tem de colocar a imaginação num outro patamar, o da procura do possível no interior do existente; não para erigir mundos utópicos, mas para jogar luz sobre a realidade supostamente monolítica e sem alternativas. A idéia do materialismo iconoclasta me veio do livro "Dialética Negativa" de Adorno. Uma das seções do capítulo "Categorias" é chamada precisamente "materialismo sem imagens".

Wednesday, February 01, 2006

Deus deve estar...deixa pra lá.

- Olá, qual o seu nome
- Dani.
- Daniel ou Daniela?
- É óbvio que é Daniela, não está vendo, sou uma menina.
- Mas é sempre bom confirmar né.
- Ok, Ok. Mas me diz, qual o seu nome?
- Carlos e eu sou homem.
- Isso eu já vi e não quero confirmar nada.
- Mas me diz o que você faz da vida?
- Eu estudo e trabalho e você?
- Por enquanto faço cursos. Todo mundo que está desempregado adora dizer que faz cursos. Mas você estuda o que?
- Faço faculdade de artes cênicas.
- E trabalha como atriz?
- Não. Trabalho em uma farmácia.
- Farmácia! Que legal, adoro cheiro de farmácia.
- Hum?
- Acho que na verdade gosto do cheiro de esparadrapo.
- Não vou nem perguntar porque. Você é esquisito.
- Esquisito? Só porque eu estou tentando superar minha timidez excessiva sendo sincero? Eu nunca faço os primeiros movimentos, pois devido a minha timidez, sempre me pego em situações embaraçosas e um tanto traumáticas.
- Nossa! Você tem respostas muito amargas. O que aconteceu, você está nervoso?
- É, na verdade estou um pouco chateado e queria conversar com algum estranho, por isso te abordei.
- Mas o que aconteceu?
- Se eu falar dos meus problemas, você jura que não vai sair correndo?
- Juro.
- Ando brigando muito com a minha familia, por coisas bobas e estou querendo trabalhar, mas tem a merda da fase de exército, essa coisa de reservista sabe? Uma coisa desnecessária na minha opinião. Eu ando pegando ônibus muito lotado, sentando ao lado de pessoas chatas e esta onda de calor em São Paulo me deixou mais suicida que nunca...é isso.
- Mas você precisa ter calma, tudo tem seu tempo.
- É. Já me falaram isso, mas esse tempo nunca chega.
- Você está ansioso?
- Sim, muito. Já até montaram o palco dos Rolling Stones e eu ainda estou aqui...sem grana!
- Mas ansiedade não é uma coisa boa. Você já orou?
- Não! eu parei com isso já faz algum tempo, não acredito mais em Deus sabe, mas se ele existir começo a suspeitar que ele é quem está me provocando.
- Credo! Não fala assim.
- Desculpa se te ofendi.
- Deus é maravilhoso!
- Ah! nisso eu discordo.
- Mas ele conheçe o seu coração.
- Pode ser!
- Ele sabe o que você quer.
- Sabe o que eu quero e manda acontecer o contrário?
- Mas você pode falar com ele até por pensamento.
- Ele lê pensamento? Ah não, to fudido, é por isso então...
- Ele te conheçe.
- Eu sei disso, é assim que ele me provoca. Você é católica?
- Não. Sou evangélica, graças a Deus.
- Ah sim, eu sempre me confundo quem é que não se depila, crente, evangélica, católica...
- E você e de qual religião?
- Se não acredito em Deus, eu sou ateu né dãããã...Mas acho que sou um tipo de ateu místico. Bato na madeira, faço o sinal da cruz, curto Iemanjá e as vezes não corto o cabelo e nem faço a barba.
- Mas nesse caso você coloca Iemanjá como Deus e Jesus Cristo não gosta disso. Ele diz que só ele é Deus.
- Um pouco megalomaníaco esse seu Jesus, você não acha? Mas eu não disse que endeuso ela, eu disse que curto, do mesmo jeito que eu curto Rolling Stones.
- Mas não há outro Deus além dele.
- Não sei. Se existem outros remédios para a dor de cabeça além da Neosaldina na farmácia onde você trabalha, podem existir outros deuses oras!
- Credo!
- Olha, eu gosto da Iemanjá, porque ela tem personalidade, entende? Jesus também tinha, mas ele é homem. Prefiro gostar de mulher.
- Mas quem curte ela, deixa Deus de lado.
- Ah sim, isso é verdade. Mas uma coisa é Iemanjá, toda de azul, bélissima, molhadinha saindo do mar. Outra coisa é Deus, alto, poderoso, nervoso, esbravejando e com cólica.
- Cólica?
- Sim, minha mãe quando está com cólica, acha que é Deus...

(Este diálogo foi inspirado em fatos reais e é dedicado ao meu amigo Mike do adaptations blog)

Monday, January 30, 2006


"Foda-se o rock. Fodam-se os cigarros e o cabelo lambido pra trás que acaba num rabo de cavalo e num preço de entrada alto. Maturidade e progressão não querem dizer música e ideais do status quo. Sob a falsa pretensão de atingir novas audiências, bandas previamente punks nos trazem de volta ao ponto zero, jogando janela afora as fundações de independência que levaram anos pra serem construídas. Esta banda é uma tentativa de reforçar essas fundações que estão rapidamente se erodindo. Talvez esses tipos "roqueiros" não vejam dessa maneira, mas falando como alguém que nunca foi tentado pela subida escorregadia da merda pseudo-preocupada pós-hardcore de código de barras, o senso comum me diz que não importa quantas canções de reggae você escreva sobre direitos humanos, sua audiência ainda vai dar uma "agitada" e beber vinho e cerveja long-neck. Então eles vão voltar pra casa e foder como cachorros e não dar a mínima pra suas melodias politicamente preocupadas pra caramba. O MEIO é A MENSAGEM."
Born Against, foi uma das mais reais bandas punk de todos os tempo.

Monday, January 23, 2006

O que eu procuro não vive mais ai, deve estar do lado de fora.
Viny Blisset

O mais difícil da vida não são as escolhas que temos que fazer, mas sim o modo como somos obrigados a escolher.
Escolhemos sempre as imitações, as mentiras, as representações daquilo que poderíamos ter efetivamente. Escolhemos sem termos opção de escolha, pois, o que difere a escolha A da escolha B são apenas os nossos desejos que infelizmente não temos controle e consciência deles.
O ato de consumir e a pseudo-liberdade imposta pela mercadoria são os mecânismo fundamentais usados pelo sistema das representações, aonde você assisti, compra e se satisfaz com tudo que é falso, pois a troca das mercadorias ou o que chamamos de ecônomia, atingiu uma autônomia na qual ela se reproduz para ela mesma e nós apenas contemplamos essa reprodução e nos limitamos a aceitar aquilo que nos é oferecido. Nós não temos o que queremos, temos apenas o que querem nos dar.
Portanto, a consciência do desejo e o desejo da consciência, são os mesmos projetos que sob a forma negativa quer a abolição da mentira cotidiana, isto é, que os seres humanos tenham a posse direta de todos os momentos de sua atividade.

Thursday, January 05, 2006


A Mentira

Dia 31 de Dezembro de 2005 às 23:50hs, eu sem querer me peguei sentado na areia, olhando o mar e sorrindo. Não era um sorriso de alegria, mas sim um sorriso singelo, confortável e puro. Daqueles que nós nunca damos ou nunca percebemos dar.
O engraçado de tudo isso é que eu nunca fui um admirador do mar, pelo contrário ele sempre me causou pavor. Nunca fui um frequentador assíduo de praias, sempre preferi as grandes construções de arquitetura moderna das metrópoles. Nunca gostei de festas de ano novo e desse falso espírito de renovação, esperança e essa pseudo-segurança compensatória. Sempre encarei e ainda encaro o tal do ano novo como apenas a mudança de um dia para o outro, o resto é invenção humana.
Mas me peguei sorrindo sem saber porque.
Talvez por eu estar ao lado de uma pessoa que eu amo muito, ou talvez por ver como as pessoas em determinadas situações parecem ser boas, ingênuas e puras. Sim eu admito, eu me sentia confortável naquele momento. Essa sensação de que algo me protegia, de que nada de ruim poderia acontecer, fez eu perceber o quanto sou um farsante, um mentiroso.
Cada vez mais eu entendo que a verdade não é o importante. O importante é o que você quer acreditar.

Feliz Pseudo-Ano Novo à todos vocês.

Tuesday, December 06, 2005

Nada é impossível de Mudar

"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar."
Bertold Brecht.

Tuesday, November 22, 2005

"O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retóricamente, transportadas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora entram em consideração como metal, não mais como moedas"
Friedrich Nietzsche - Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral.

Wednesday, November 16, 2005

- Pouco me importa.
- Pouco te importa o que?
- Não sei, mas pouco me importa.

Thursday, November 10, 2005


Pois É - Los Hermanos
Composição: Marcelo Camelo

Pois é, não deu
Deixa assim como está sereno
Pois é de Deus
Tudo aquilo que não se pode ver
E ao amanhã a gente não diz
E ao coração que teima em bater

"Avisa que é de se entregar o viver "

Pois é, até
Onde o destino não previu
Sem mas, atrás vou até onde eu conseguir
Deixa o amanhã e a gente sorri
Que o coração já quer descansar
Clareia minha vida, amor, no olhar

Friday, November 04, 2005


Manifesto DESORKUTE-SE!
Por: Viny Blisset

Um movimento surgido no interior da rede (desterritorializada)de amigos vem ganhando cada vez mais adeptos. O suicídio ritual do Orkut é expressão de uma recusa, mais uma. Leia na íntegra o manifesto DESORKUTE-SE!

ADVERTÊNCIA INTRODUTÓRIA:
Não se trata de recusa tecnológica. Trata-se de recusa aos mecanismos de absorção e controle diretamente vinculados à lógica do espetáculo integrado moderno. Sua esfera de ação encontra espaço em nossas vidas, sendo portanto essencial desconstruir o simulacro filosófico e estético reinante. No espaço desterritorializado, a justaposição descontextualizada de seus elementos não é possível, toda subversão é bem vinda: absorvida e reproduzida. Nesse sentido, trata-se de recusa à sobrevivência. Esse processo encontra nas mídias de entretenimento e informação, redes de comunicação e encontro virtuais, sua realização objetiva. Acreditarmos na ilusão da atividade humana nesse contexto é cair na magistral mentira generalizada da humanidade. Se nada é verdadeiro (enquanto realização e experiência), o que mais esperamos para permitirmos a nós mesmos simplesmente tudo? O indivíduo fragmentado se desobjetiva realizando a totalidade da vida.
TERRITÓRIO DE ILUSÕES:
Mais do que nunca vivemos uma representação. O processo de inversão da vida agora objetiva-se em monitores integrados de absorção castrativa, páginas de Orkut.
A dimensão territorial de nossas vidas já não mais nos faz sentido. Não reconhecemos outra objetividade que não essa à qual aparentamos uma existência realizada: tanto individual quanto coletiva.
Não passamos de simulacros de si próprios, nos afastamos cada vez mais do conjunto de elementos que constituem nossas vidas. Nos afastamos das dimensões espaciais que constituem o espaço do cotidiano, onde de fato nos realizamos: não mais reconhecemos a paisagem que nos envolve, nem o lugar em que vivemos.
O Orkut se transformou em elemento de fetichização dos indivíduos inseridos em sua lógica, a felicidade agora se conjuga com uma popularidade aparente: consideram-se amigas pessoas que nunca se encontraram. Nessa lógica, o encontro com o Outro se dá agora através do distanciamento e da representação. Desterritorializados, os indivíduos se desintegram, e caminham para a objetivação de sua transformação em pontos de fluxo informacionais e imagéticos, mediados pela relação social entre indivíduos separados ideologicamente e materialmente.
As redes de indivíduos separados e comunidades ausentes de realização entre os membros que a constituem (paradoxo maior do Orkut), se ampliam à medida que um maior dispêndio de tempo é dedicado pelo indivíduo inserido nessa lógica. Para conquistar a falsa-felicidade, é preciso engajamento: espacial e temporal.
Espacial porque é preciso abdicar do território material para engendrar as relações no espaço desterritorializado da rede informacional e imagética.
Temporal porque nega a vida, estabelece uma nova relação com aquilo que é falso e se configura como verdadeiro. A esfera do cotidiano se transmuta em uma nova dimensão, a dimensão espaço-temporal da não realização, o cotidiano-rede. Implica novas formas de percepção da realidade, percepção essa reduzida à mecanismos visuais e motores identificados com a lógica tecnológica e informacional da rede.
O cotidiano é a esfera real de ação da subjetividade humana, é o espaço onde a dimensão da vida se objetiva, se torna real. No cotidiano-rede, os indivíduos delegam-se do poder de domínio e apropriação do espaço, isso porque é o espaço desterritorializado que domina e se apropria da subjetividade humana.
A comunidade, enquanto corpo social não faz sentido uma vez que o lugar habitado pelos indivíduos que constituem esse corpo não existe enquanto materialidade. Comunidades virtuais há muito existem desvinculadas de territórios, processo que inverte progressivamente as relações humanas e suas disposições espaciais uma vez que a representação, distanciamento, separação e não-realização se convertem em objetividade unilateral. Estabelece-se um vínculo que une os complexos de não-realização e realização virtual; separação e encontro virtual; representação e realidade aparente.
O homem espectador revela-se protagonista de sua dissolução subjetiva, e quanto maior a falsidade de suas realizações, maior sua satisfação. O verdadeiro transmuta-se em momentos do falso. Opta-se pela ilusão: aurora de imagens e informações.
O espaço de encontro entre amigos não existe uma vez que inexiste encontro com o Outro, o que se realiza de fato é uma comunicação superficial entre indivíduos mediados por dados e fluxos imagéticos e informacionais.
O usuário do Orkut vive uma ilusão. A máquina é sua expressão efetivamente real, e o Orkut sua manifestação geral.
Para Lefebvre, é no cotidiano que a existência social e do ser humano formula em sentido geral, os problemas de sua reprodução. O cotidiano é dessa forma, o espaço do novo e do possível.
Enquanto espaço desterritorializado e do tempo não-vivido, o cotidiano-rede conjuga a falsa existência do ser separado com a esfera de não realização informacional e imagética da rede. Confluem em seu universo um conjunto de simulacros e representações que são a expressão mais evidente da sociedade do espetáculo.
A ruptura situacionista do cotidiano só é possível com a negação total da sociedade do espetáculo, recusa essa que encontrava no jogo sua expressão revolucionária. No cotidiano-rede, o jogo não é possível uma vez que não há nada com que se jogar se não com sua própria dissolução enquanto sujeito. A ruptura deve-se dar através do suicídio.
Desterritorializados, nos reterritorializamos, e voltamos assim a sermos fluxos de desejo no devir do mundo, não mais fluxos informacionais e imagéticos no devir falso da rede. É com o suicídio ritual do Orkut que damos um passo a frente na construção da história, uma história que jamais foi vivida pela humanidade, e que caminha cada vez mais para a não realização de nossas vidas.
A net é a totalidade das transferências de informações e de dados na rede. Algumas dessas transferências são privilégio e exclusividade de várias elites, conferindo-lhes um aspecto hierárquico. Outras transações são abertas a todos, e dessa forma a net possui também um aspecto horizontal e não-hieráquico. De maneira geral, a telefonia, o sistema postal, os bancos de dados públicos entre outros são acessíveis a todos. Com isso, de dentro da net começou a emergir um tipo de contra-net: a web.
O Orkut é um mecanismo de controle da web. Quanto tempo era gasto com pesquisas, plágios e pirataria cultural antes do surgimento do messenger e das páginas de encontro virtuais? A net deve existir e co-existir com esses mecanismos de controle, a escolha de sua submissão e perda de autonomia na rede deve ficar a cargo de nós mesmos. Devemos fazer emergir da crítica a totalidade e suas manifestações gerais, não aspectos e mecanismos específicos que apenas decorrem dessa lógica. Aquém de neo-luddismos, unabombers e durdens, não acreditamos na destruição material dos objetos. As mercadorias agentes da separação só serão efetivamente destruídas em sua totalidade, se compreendermos a aura de sua reificação. Dessa tomada de consciência, rituais próximos ao Potlatch primitivo poderão novamente ser realizados; assim como o foi no bairro negro de Watts em Los Angeles (1965). A destruição material de mercadorias respeitando à ilógica insurrecional e subjetiva das massas. Objetivamente: o suicídio ritual do Orkut se dá com a simples realização de um logoff, apenas isso. A título de indicativos do processo de recusa que se inicia, uma não-comunidade ou anti-comunidade será formada apenas por fantasmas que um dia navegaram por aquele espaço. E estes serão signos da realização, nômades agora reterritorializados, engendrando uma relação verdadeira e realizada com a vida, e com sua esfera de ação, o cotidiano.
Enquanto o panoptismo da vigilância, do controle e da correção vigorar sem enfrentamento e questionamento em nossa sociedade, homens-máquina vagarão à noite em meio às ruas vazias, revelando cartografias afetivas e novas formas de consciência do território. O véu da separação é então retirado, e a emergência de situações e zonas autônomas se faz possível. Conscientes da inversão, exigimos e realizamos o impossível.

Viny Blisset, outubro de 2005.
Além do Copyleft: plagie, copie, não cite a fonte. Diga que o autor desse manifesto é você, ou alguém que de fato não existe ou apenas você conhece.

Friday, October 28, 2005

Le Parkour
A arte/subversão do movimento.

O Que é?
É basicamente o método natural de condicionar o corpo para se tornar capaz de se mover adiante com agilidade, fazendo uso dos obstáculos que estão a nossa volta o tempo todo. A Arte do movimento não necessita de nenhuma estrutura ou acessórios, seu corpo é sua única ferramenta. A Disciplina do Parkour tem como base atravessar obstáculos da forma mais rápida possível e com mais fluxo, mantendo um ritmo continuo de movimentos. Para isso o esporte tem varias técnicas como escaladas, vaults (saltos com apoio das mãos), rolamentos para absorção de impacto, e diversos outros movimentos que fazem um Traceur (Praticante de Parkour) apto a enfrentar todos os obstáculos.
Como surgiu?
Os movimentos do Parkour são utilizados desde o inicio da humanidade, mas a arte na verdade foi criado nos anos 80 em Lisse, França. Iniciado por um grupo de crianças brincando, e resolveram levar a sério o que era o estilo militar de cruzar obstáculos. As crianças em questão cresceram e desenvolveram a arte. Dois deles são os conhecidos David Belle e Sebastien Foucan. Mas vários sites, praticantes e outros acreditam que a arte tenha sido criada por um grupo maior de pessoas, entre eles, os que adicionaram influências foram Yahn Hnautra, Daivd Balogne, Frederic Hnautra e Kazuma. Uma outra grande influencia, foi o pai de David Belle, com seu passado militar.
Parkour no Brasil.
A Primeira vez que se teve noticias de Traceurs no Brasil, foi no inicio de 2004, quando nasceram alguns grupos em Brasília e São Paulo, depois com o tempo, foram nascendo grupos em Curitiba, Florianópolis, João pessoa e por todo resto do país.
Em Brasília é onde se tem noticia da maior cena ativa de Parkour, com cerca de 20 praticantes ativos, treinos fixos, e uma equipe de alto nível técnico a frente dos treinamentos. Em São Paulo os praticantes são em numero menor, mas não perde o nível técnico dos praticantes.
(Esses dados já foram superados).
Dificuldades.
Sendo um esporte que usa os obstáculos urbanos, os Traceurs no Brasil enfrentam o problema dos seguranças e policiais. É difícil um policial que vê uma pessoa pulando muros de 2 metros, com um simples toque, passando por cercas, grades, pulando de um telhado pro outro, e todas as outras coisas que fazem do Parkour um esporte intenso, entender que ele está praticando um esporte, uma disciplina atlética, que estimula a mente, cria resistência física, velocidade, e o mais importante seguindo uma filosofia de treinamento.
Traceurs são freqüentemente confundidos com marginais, pedidos que se retirem mesmo de locais públicos por policiais, sem falar nos seguranças de prédios, e áreas comerciais. Mas vale lembrar também que em muitos lugares os seguranças e policias perguntam apenas o que esta acontecendo, pede que tomem cuidados, e liberam pra continuar, muitos deles ate ficam admirados e elogiam os movimentos dos praticantes.

Minha Visão Sobre:
Entendo o Parkour como a necessidade do homem voltar a se integrar com o meio no qual ele vive e se movimentar de acordo com as possibilidades naturais do seu corpo. Digamos que seria a volta do homem a seu estado Hominída.
Graças às facilidades dos meios de locomoção moderna, o homem esqueceu de como explorar fisicamente seu corpoe de como tornar a utilizar o meio onde vive harmoniosamente. O Parkour é uma forma de subversão física ao sedentárismo moderno, uma forma de subversão filosófica, antropológica e geográfica. Não há limites para um Traucer. Ele toma a cidade como parte dele e se utiliza dela.
Outra característica fundamental, é a autônomia de cada Traucer. Pois no Parkour não temos mestres, guias, ou qualquer outra forma de hierarquia. Cada Traucer é responsável por si mesmo e não há competição. É como ser fosse a mistura do esporte com a filosofia da liberdade.
O Parkour não é andar a cair de telhados, fazer saltos "malucos" ou impressionar as pessoas à nossa volta. O Parkour vive dentro de cada um de nós.

Mais informações e vídeos:
http://videolog.click21.com.br/videolog/vdl_index.php?user=esquilo
http://www.parkourpt.com/parkour/
http://www.davidbelle.com/
http://www.parkour.com/