Desde que sou capaz de pensar, que me faz feliz a canção - entre a montanha e o vale profundo - a história de duas lebres que se empanturram de grama, foram abatidas pelo caçador, e ao constatarem que ainda estavam vivas, saíram correndo. Porém, só muito mais tarde eu compreendi a lição aí contida: a razão só pode resistir no desespero e no excesso; é preciso o absurdo para não se sucumbir à loucura objetiva. Deve-se fazer como as duas lebres. Quando o tiro vem, cair fingindo de morto, juntar todas as suas forças e refletir, e, se ainda se tiver fôlego, dar o fora. A capacidade para o medo e a capacidade para a felicidade são o mesmo: a abertura ilimitada, que chega à renúncia de si, para a experiência, na qual o que sucumbe se reencontra. O que seria a felicidade que não se medisse pela incomensurável tristeza com o que existe ? Pois o curso do mundo está transtornado. Quem por precaução a ele se adapta, tornar-se por isso mesmo um participante da loucura, enquanto só o excêntrico conseguiria aguentar firme e oferecer resistência a absurdidade. Só ele seria capaz de refletir sobre o ilusório do desastre, a irrealidade do desespero, e de se conscientizar não só de que ele ainda vive, mas de que ainda há vida.
Monday, April 10, 2006
Desde que sou capaz de pensar, que me faz feliz a canção - entre a montanha e o vale profundo - a história de duas lebres que se empanturram de grama, foram abatidas pelo caçador, e ao constatarem que ainda estavam vivas, saíram correndo. Porém, só muito mais tarde eu compreendi a lição aí contida: a razão só pode resistir no desespero e no excesso; é preciso o absurdo para não se sucumbir à loucura objetiva. Deve-se fazer como as duas lebres. Quando o tiro vem, cair fingindo de morto, juntar todas as suas forças e refletir, e, se ainda se tiver fôlego, dar o fora. A capacidade para o medo e a capacidade para a felicidade são o mesmo: a abertura ilimitada, que chega à renúncia de si, para a experiência, na qual o que sucumbe se reencontra. O que seria a felicidade que não se medisse pela incomensurável tristeza com o que existe ? Pois o curso do mundo está transtornado. Quem por precaução a ele se adapta, tornar-se por isso mesmo um participante da loucura, enquanto só o excêntrico conseguiria aguentar firme e oferecer resistência a absurdidade. Só ele seria capaz de refletir sobre o ilusório do desastre, a irrealidade do desespero, e de se conscientizar não só de que ele ainda vive, mas de que ainda há vida.
Wednesday, March 08, 2006
O pesadelo estético e o espetáculo do capital.
(Givago Oliveira & Viny Rodrigues)
O anão Hans se apaixona por bela trapezista de circo que, ao saber que ele herdou uma fortuna, planeja, com o amante Hercules, se apossar da sua herança. Fingindo corresponder ao amor de Hans, ela se casa com ele e tenta envenená-lo. Ao saber do plano criminoso, os amigos de Hans, figuras grotescas do circo, os "monstros" do título, decidem vingá-lo. A trama toda ocorre num circo. Desta vez, Browning (que dirigiu o clássico Drácula, com Bela Lugosi), trata do grotesco e do preconceito para com homens e mulheres com aberrações físicas, verdadeiros fenômenos circenses, objeto da curiosidade e pavor do publico. O horror de Freaks é o horror do humano grotesco, da figura aberrante e deformada. Mas o curioso é que, no filme, são tais figuras grotescas que expressam laços de sociabilidade e de valor humanos. Os supostos homens "normais", como a trapezista e seu amante, exemplos de beleza e força física, representam, por outro lado, a degradação de caráter humano, imersos em trapaças e preconceitos contra o diferente e o anormal. Na verdade, no mundo do capital, o normal é que se torna verdadeiramente grotesco. Produzido em 1932, em plena depressão capitalista, com seus milhões de desempregados nos EUA, e no auge do furor fascista na civilizada Europa ocidental, Freaks parece utilizar o grotesco como critica da sociabilidade estranhada do mundo burguês.Durante as bodas de Hans e Cleopatra, os freaks aceitam a introdução da noiva normal em seu círculo através de um ritual, fazendo passar uma taça de champanhe da qual todos têm de beber misturando suas salivas e gritando: "Uma de nós! Uma de nós!". Contudo, a noiva só lhes tem horror, e os humilha beijando Hercules e não Hans, quebrando a taça que o anão leva de pé sobre a mesa até sua boca: ela abandona a festa gritando todo o nojo que sente daquelas "aberrações". Os freaks começam, então, a suspeitar das intenções casamenteiras de Cleopatra. E quando Hans mostra sintomas de envenenamento, eles passam a vigiar as barracas de Cleopatra e de Hercules, seguindo os passos deles, descobrindo seus planos e preparando uma vingança brutal, desencadeada de maneira assustadora durante uma noite de tempestade.
Se situarmos Freaks na organização social do mundo pós-moderno, podemos interpretá-lo como uma crítica clara ao modo de produção capitalista e ao modo como as relações sociais se desenvolvem nesse espetáculo. Se no mundo capitalista, o qualitativo é substituido pelo quantitativo, e o valor de uso pelo valor de troca, e toda a mediação das relações é feita através do mercado que tudo coisifica. No filme podemos identificar o qualitativo com as aberrações humanas que apesar de suas deformidades, eram os únicos que de alguma forma se relacionavam através do que podemos chamar de "valor de uso humano" ou seja, dando importância ao valor real do outro. Os personagens normais, aqueles sem deformações físicas, seriam o nosso quantitativo, nosso "valor de troca humano", aqueles cujo o ter é mais importante do que o ser, e que a normalidade serve de máscara para a moral torpe e deturpada, são aqueles que coisificam o anão Hans e o transformam apenas em mercadoria para a acumulação de capital. Freaks é uma analogia sobre o mundo invertido que estava em constante construção desde o fim da sociedade feudal. Nada mais inteligente do que situar a história em um circo de horrores, pois o que o desenvolver do capitalismo, até os dias de hoje, nos mostra sua fase mais cruel e ao mesmo tempo sofisticada. O espetáculo no qual a lógica da mercadoria está inserida em quaisquer tipos de relações e a ecônomia se tornou algo auto-suficiente, que rege a nossa vida.
Freaks é sem dúvida um filme atual que deve ser assistido e pensado tanto do ponto de vista natural, quanto do ponto de vista histórico social.
Wednesday, March 01, 2006
Autonomia.
Cartola
É impossível nesta primavera, eu sei.
Impossível, pois longe estarei.
Mas pensando em nosso amor, amor sincero.
Ai! se eu tivesse autonomia.
Se eu pudesse gritaria.
Não vou, não quero.
Escravizaram assim um pobre coração.
É necessário a nova abolição.
Pra trazer de volta a minha liberdade.
Se eu pudesse gritaria, amor.
Se eu pudesse brigaria, amor.
Não vou, não quero.
(Poucos homens entenderam tão bem e de forma tão simples, a cruel realidade do mundo)
Friday, February 10, 2006
Viny:
Nunca entendi direito o que você quer dizer com:
Por um Materialismo Iconoclasta.
O materialismo em si já não é iconoclasta? Só o fato dele ser uma leitura crítica do real, já não o faz iconoclasta?
Cláudio R. Duarte (Militante Imáginário):
Viny,
Minha idéia de iconoclastia, de "destruir imagens", é a de triturar nossos ídolos, tudo que se cristaliza alienadamente em imagem e que se volta fantasmaticamente contra nós mesmos. Mas isso não quer dizer o fim da imaginação. Ao contrário. Na sua cruzada contra o espírito, a especulação, a imaginação, o materialismo foi sempre tributário do que meramente existe (daí por exemplo a "teoria do reflexo" do marxismo, da teoria como pura e perfeita cópia "objetiva" do real). O "realismo socialista", por exemplo, é essa forma de materialismo na estética, que erigiu a realidade existente em dogma a ser respeitado, através da sua cópia ostensiva, onde já não havia lugar para efeitos de estranhamento ou para a criação de um outro mundo. A idéia de um materialismo iconoclasta então seria "dialética", no sentido que almeja "estilhaçar" as imagens do real existente, que residem lá no fundo de nossa mente, em nosso modo de vida burguês, e que nos dão segurança de que esta é a única forma de vida possível. Mas para destruir isso tem de colocar a imaginação num outro patamar, o da procura do possível no interior do existente; não para erigir mundos utópicos, mas para jogar luz sobre a realidade supostamente monolítica e sem alternativas. A idéia do materialismo iconoclasta me veio do livro "Dialética Negativa" de Adorno. Uma das seções do capítulo "Categorias" é chamada precisamente "materialismo sem imagens".
Wednesday, February 01, 2006
- Olá, qual o seu nome
- Dani.
- Daniel ou Daniela?
- É óbvio que é Daniela, não está vendo, sou uma menina.
- Mas é sempre bom confirmar né.
- Ok, Ok. Mas me diz, qual o seu nome?
- Carlos e eu sou homem.
- Isso eu já vi e não quero confirmar nada.
- Mas me diz o que você faz da vida?
- Eu estudo e trabalho e você?
- Por enquanto faço cursos. Todo mundo que está desempregado adora dizer que faz cursos. Mas você estuda o que?
- Faço faculdade de artes cênicas.
- E trabalha como atriz?
- Não. Trabalho em uma farmácia.
- Farmácia! Que legal, adoro cheiro de farmácia.
- Hum?
- Acho que na verdade gosto do cheiro de esparadrapo.
- Não vou nem perguntar porque. Você é esquisito.
- Esquisito? Só porque eu estou tentando superar minha timidez excessiva sendo sincero? Eu nunca faço os primeiros movimentos, pois devido a minha timidez, sempre me pego em situações embaraçosas e um tanto traumáticas.
- Nossa! Você tem respostas muito amargas. O que aconteceu, você está nervoso?
- É, na verdade estou um pouco chateado e queria conversar com algum estranho, por isso te abordei.
- Mas o que aconteceu?
- Se eu falar dos meus problemas, você jura que não vai sair correndo?
- Juro.
- Ando brigando muito com a minha familia, por coisas bobas e estou querendo trabalhar, mas tem a merda da fase de exército, essa coisa de reservista sabe? Uma coisa desnecessária na minha opinião. Eu ando pegando ônibus muito lotado, sentando ao lado de pessoas chatas e esta onda de calor em São Paulo me deixou mais suicida que nunca...é isso.
- Mas você precisa ter calma, tudo tem seu tempo.
- É. Já me falaram isso, mas esse tempo nunca chega.
- Você está ansioso?
- Sim, muito. Já até montaram o palco dos Rolling Stones e eu ainda estou aqui...sem grana!
- Mas ansiedade não é uma coisa boa. Você já orou?
- Não! eu parei com isso já faz algum tempo, não acredito mais em Deus sabe, mas se ele existir começo a suspeitar que ele é quem está me provocando.
- Credo! Não fala assim.
- Desculpa se te ofendi.
- Deus é maravilhoso!
- Ah! nisso eu discordo.
- Mas ele conheçe o seu coração.
- Pode ser!
- Ele sabe o que você quer.
- Sabe o que eu quero e manda acontecer o contrário?
- Mas você pode falar com ele até por pensamento.
- Ele lê pensamento? Ah não, to fudido, é por isso então...
- Ele te conheçe.
- Eu sei disso, é assim que ele me provoca. Você é católica?
- Não. Sou evangélica, graças a Deus.
- Ah sim, eu sempre me confundo quem é que não se depila, crente, evangélica, católica...
- E você e de qual religião?
- Se não acredito em Deus, eu sou ateu né dãããã...Mas acho que sou um tipo de ateu místico. Bato na madeira, faço o sinal da cruz, curto Iemanjá e as vezes não corto o cabelo e nem faço a barba.
- Mas nesse caso você coloca Iemanjá como Deus e Jesus Cristo não gosta disso. Ele diz que só ele é Deus.
- Um pouco megalomaníaco esse seu Jesus, você não acha? Mas eu não disse que endeuso ela, eu disse que curto, do mesmo jeito que eu curto Rolling Stones.
- Mas não há outro Deus além dele.
- Não sei. Se existem outros remédios para a dor de cabeça além da Neosaldina na farmácia onde você trabalha, podem existir outros deuses oras!
- Credo!
- Olha, eu gosto da Iemanjá, porque ela tem personalidade, entende? Jesus também tinha, mas ele é homem. Prefiro gostar de mulher.
- Mas quem curte ela, deixa Deus de lado.
- Ah sim, isso é verdade. Mas uma coisa é Iemanjá, toda de azul, bélissima, molhadinha saindo do mar. Outra coisa é Deus, alto, poderoso, nervoso, esbravejando e com cólica.
- Cólica?
- Sim, minha mãe quando está com cólica, acha que é Deus...
(Este diálogo foi inspirado em fatos reais e é dedicado ao meu amigo Mike do adaptations blog)
Monday, January 30, 2006
"Foda-se o rock. Fodam-se os cigarros e o cabelo lambido pra trás que acaba num rabo de cavalo e num preço de entrada alto. Maturidade e progressão não querem dizer música e ideais do status quo. Sob a falsa pretensão de atingir novas audiências, bandas previamente punks nos trazem de volta ao ponto zero, jogando janela afora as fundações de independência que levaram anos pra serem construídas. Esta banda é uma tentativa de reforçar essas fundações que estão rapidamente se erodindo. Talvez esses tipos "roqueiros" não vejam dessa maneira, mas falando como alguém que nunca foi tentado pela subida escorregadia da merda pseudo-preocupada pós-hardcore de código de barras, o senso comum me diz que não importa quantas canções de reggae você escreva sobre direitos humanos, sua audiência ainda vai dar uma "agitada" e beber vinho e cerveja long-neck. Então eles vão voltar pra casa e foder como cachorros e não dar a mínima pra suas melodias politicamente preocupadas pra caramba. O MEIO é A MENSAGEM."
Born Against, foi uma das mais reais bandas punk de todos os tempo.
Monday, January 23, 2006
Viny Blisset
O mais difícil da vida não são as escolhas que temos que fazer, mas sim o modo como somos obrigados a escolher.
Escolhemos sempre as imitações, as mentiras, as representações daquilo que poderíamos ter efetivamente. Escolhemos sem termos opção de escolha, pois, o que difere a escolha A da escolha B são apenas os nossos desejos que infelizmente não temos controle e consciência deles.
O ato de consumir e a pseudo-liberdade imposta pela mercadoria são os mecânismo fundamentais usados pelo sistema das representações, aonde você assisti, compra e se satisfaz com tudo que é falso, pois a troca das mercadorias ou o que chamamos de ecônomia, atingiu uma autônomia na qual ela se reproduz para ela mesma e nós apenas contemplamos essa reprodução e nos limitamos a aceitar aquilo que nos é oferecido. Nós não temos o que queremos, temos apenas o que querem nos dar.
Portanto, a consciência do desejo e o desejo da consciência, são os mesmos projetos que sob a forma negativa quer a abolição da mentira cotidiana, isto é, que os seres humanos tenham a posse direta de todos os momentos de sua atividade.
Thursday, January 05, 2006

A Mentira
Dia 31 de Dezembro de 2005 às 23:50hs, eu sem querer me peguei sentado na areia, olhando o mar e sorrindo. Não era um sorriso de alegria, mas sim um sorriso singelo, confortável e puro. Daqueles que nós nunca damos ou nunca percebemos dar.
O engraçado de tudo isso é que eu nunca fui um admirador do mar, pelo contrário ele sempre me causou pavor. Nunca fui um frequentador assíduo de praias, sempre preferi as grandes construções de arquitetura moderna das metrópoles. Nunca gostei de festas de ano novo e desse falso espírito de renovação, esperança e essa pseudo-segurança compensatória. Sempre encarei e ainda encaro o tal do ano novo como apenas a mudança de um dia para o outro, o resto é invenção humana.
Mas me peguei sorrindo sem saber porque.
Talvez por eu estar ao lado de uma pessoa que eu amo muito, ou talvez por ver como as pessoas em determinadas situações parecem ser boas, ingênuas e puras. Sim eu admito, eu me sentia confortável naquele momento. Essa sensação de que algo me protegia, de que nada de ruim poderia acontecer, fez eu perceber o quanto sou um farsante, um mentiroso.
Cada vez mais eu entendo que a verdade não é o importante. O importante é o que você quer acreditar.
Feliz Pseudo-Ano Novo à todos vocês.
Tuesday, December 06, 2005
"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar."
Bertold Brecht.
Tuesday, November 22, 2005
Friedrich Nietzsche - Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral.
Wednesday, November 16, 2005
Thursday, November 10, 2005

Pois É - Los Hermanos
Composição: Marcelo Camelo
Pois é, não deu
Deixa assim como está sereno
Pois é de Deus
Tudo aquilo que não se pode ver
E ao amanhã a gente não diz
E ao coração que teima em bater
"Avisa que é de se entregar o viver "
Pois é, até
Onde o destino não previu
Sem mas, atrás vou até onde eu conseguir
Deixa o amanhã e a gente sorri
Que o coração já quer descansar
Clareia minha vida, amor, no olhar
Friday, November 04, 2005

Manifesto DESORKUTE-SE!
Por: Viny Blisset
Um movimento surgido no interior da rede (desterritorializada)de amigos vem ganhando cada vez mais adeptos. O suicídio ritual do Orkut é expressão de uma recusa, mais uma. Leia na íntegra o manifesto DESORKUTE-SE!
ADVERTÊNCIA INTRODUTÓRIA:
Não se trata de recusa tecnológica. Trata-se de recusa aos mecanismos de absorção e controle diretamente vinculados à lógica do espetáculo integrado moderno. Sua esfera de ação encontra espaço em nossas vidas, sendo portanto essencial desconstruir o simulacro filosófico e estético reinante. No espaço desterritorializado, a justaposição descontextualizada de seus elementos não é possível, toda subversão é bem vinda: absorvida e reproduzida. Nesse sentido, trata-se de recusa à sobrevivência. Esse processo encontra nas mídias de entretenimento e informação, redes de comunicação e encontro virtuais, sua realização objetiva. Acreditarmos na ilusão da atividade humana nesse contexto é cair na magistral mentira generalizada da humanidade. Se nada é verdadeiro (enquanto realização e experiência), o que mais esperamos para permitirmos a nós mesmos simplesmente tudo? O indivíduo fragmentado se desobjetiva realizando a totalidade da vida.
TERRITÓRIO DE ILUSÕES:
Mais do que nunca vivemos uma representação. O processo de inversão da vida agora objetiva-se em monitores integrados de absorção castrativa, páginas de Orkut.
A dimensão territorial de nossas vidas já não mais nos faz sentido. Não reconhecemos outra objetividade que não essa à qual aparentamos uma existência realizada: tanto individual quanto coletiva.
Não passamos de simulacros de si próprios, nos afastamos cada vez mais do conjunto de elementos que constituem nossas vidas. Nos afastamos das dimensões espaciais que constituem o espaço do cotidiano, onde de fato nos realizamos: não mais reconhecemos a paisagem que nos envolve, nem o lugar em que vivemos.
O Orkut se transformou em elemento de fetichização dos indivíduos inseridos em sua lógica, a felicidade agora se conjuga com uma popularidade aparente: consideram-se amigas pessoas que nunca se encontraram. Nessa lógica, o encontro com o Outro se dá agora através do distanciamento e da representação. Desterritorializados, os indivíduos se desintegram, e caminham para a objetivação de sua transformação em pontos de fluxo informacionais e imagéticos, mediados pela relação social entre indivíduos separados ideologicamente e materialmente.
As redes de indivíduos separados e comunidades ausentes de realização entre os membros que a constituem (paradoxo maior do Orkut), se ampliam à medida que um maior dispêndio de tempo é dedicado pelo indivíduo inserido nessa lógica. Para conquistar a falsa-felicidade, é preciso engajamento: espacial e temporal.
Espacial porque é preciso abdicar do território material para engendrar as relações no espaço desterritorializado da rede informacional e imagética.
Temporal porque nega a vida, estabelece uma nova relação com aquilo que é falso e se configura como verdadeiro. A esfera do cotidiano se transmuta em uma nova dimensão, a dimensão espaço-temporal da não realização, o cotidiano-rede. Implica novas formas de percepção da realidade, percepção essa reduzida à mecanismos visuais e motores identificados com a lógica tecnológica e informacional da rede.
O cotidiano é a esfera real de ação da subjetividade humana, é o espaço onde a dimensão da vida se objetiva, se torna real. No cotidiano-rede, os indivíduos delegam-se do poder de domínio e apropriação do espaço, isso porque é o espaço desterritorializado que domina e se apropria da subjetividade humana.
A comunidade, enquanto corpo social não faz sentido uma vez que o lugar habitado pelos indivíduos que constituem esse corpo não existe enquanto materialidade. Comunidades virtuais há muito existem desvinculadas de territórios, processo que inverte progressivamente as relações humanas e suas disposições espaciais uma vez que a representação, distanciamento, separação e não-realização se convertem em objetividade unilateral. Estabelece-se um vínculo que une os complexos de não-realização e realização virtual; separação e encontro virtual; representação e realidade aparente.
O homem espectador revela-se protagonista de sua dissolução subjetiva, e quanto maior a falsidade de suas realizações, maior sua satisfação. O verdadeiro transmuta-se em momentos do falso. Opta-se pela ilusão: aurora de imagens e informações.
O espaço de encontro entre amigos não existe uma vez que inexiste encontro com o Outro, o que se realiza de fato é uma comunicação superficial entre indivíduos mediados por dados e fluxos imagéticos e informacionais.
O usuário do Orkut vive uma ilusão. A máquina é sua expressão efetivamente real, e o Orkut sua manifestação geral.
Para Lefebvre, é no cotidiano que a existência social e do ser humano formula em sentido geral, os problemas de sua reprodução. O cotidiano é dessa forma, o espaço do novo e do possível.
Enquanto espaço desterritorializado e do tempo não-vivido, o cotidiano-rede conjuga a falsa existência do ser separado com a esfera de não realização informacional e imagética da rede. Confluem em seu universo um conjunto de simulacros e representações que são a expressão mais evidente da sociedade do espetáculo.
A ruptura situacionista do cotidiano só é possível com a negação total da sociedade do espetáculo, recusa essa que encontrava no jogo sua expressão revolucionária. No cotidiano-rede, o jogo não é possível uma vez que não há nada com que se jogar se não com sua própria dissolução enquanto sujeito. A ruptura deve-se dar através do suicídio.
Desterritorializados, nos reterritorializamos, e voltamos assim a sermos fluxos de desejo no devir do mundo, não mais fluxos informacionais e imagéticos no devir falso da rede. É com o suicídio ritual do Orkut que damos um passo a frente na construção da história, uma história que jamais foi vivida pela humanidade, e que caminha cada vez mais para a não realização de nossas vidas.
A net é a totalidade das transferências de informações e de dados na rede. Algumas dessas transferências são privilégio e exclusividade de várias elites, conferindo-lhes um aspecto hierárquico. Outras transações são abertas a todos, e dessa forma a net possui também um aspecto horizontal e não-hieráquico. De maneira geral, a telefonia, o sistema postal, os bancos de dados públicos entre outros são acessíveis a todos. Com isso, de dentro da net começou a emergir um tipo de contra-net: a web.
O Orkut é um mecanismo de controle da web. Quanto tempo era gasto com pesquisas, plágios e pirataria cultural antes do surgimento do messenger e das páginas de encontro virtuais? A net deve existir e co-existir com esses mecanismos de controle, a escolha de sua submissão e perda de autonomia na rede deve ficar a cargo de nós mesmos. Devemos fazer emergir da crítica a totalidade e suas manifestações gerais, não aspectos e mecanismos específicos que apenas decorrem dessa lógica. Aquém de neo-luddismos, unabombers e durdens, não acreditamos na destruição material dos objetos. As mercadorias agentes da separação só serão efetivamente destruídas em sua totalidade, se compreendermos a aura de sua reificação. Dessa tomada de consciência, rituais próximos ao Potlatch primitivo poderão novamente ser realizados; assim como o foi no bairro negro de Watts em Los Angeles (1965). A destruição material de mercadorias respeitando à ilógica insurrecional e subjetiva das massas. Objetivamente: o suicídio ritual do Orkut se dá com a simples realização de um logoff, apenas isso. A título de indicativos do processo de recusa que se inicia, uma não-comunidade ou anti-comunidade será formada apenas por fantasmas que um dia navegaram por aquele espaço. E estes serão signos da realização, nômades agora reterritorializados, engendrando uma relação verdadeira e realizada com a vida, e com sua esfera de ação, o cotidiano.
Enquanto o panoptismo da vigilância, do controle e da correção vigorar sem enfrentamento e questionamento em nossa sociedade, homens-máquina vagarão à noite em meio às ruas vazias, revelando cartografias afetivas e novas formas de consciência do território. O véu da separação é então retirado, e a emergência de situações e zonas autônomas se faz possível. Conscientes da inversão, exigimos e realizamos o impossível.
Viny Blisset, outubro de 2005.
Além do Copyleft: plagie, copie, não cite a fonte. Diga que o autor desse manifesto é você, ou alguém que de fato não existe ou apenas você conhece.
Friday, October 28, 2005
A arte/subversão do movimento.
O Que é?
É basicamente o método natural de condicionar o corpo para se tornar capaz de se mover adiante com agilidade, fazendo uso dos obstáculos que estão a nossa volta o tempo todo. A Arte do movimento não necessita de nenhuma estrutura ou acessórios, seu corpo é sua única ferramenta. A Disciplina do Parkour tem como base atravessar obstáculos da forma mais rápida possível e com mais fluxo, mantendo um ritmo continuo de movimentos. Para isso o esporte tem varias técnicas como escaladas, vaults (saltos com apoio das mãos), rolamentos para absorção de impacto, e diversos outros movimentos que fazem um Traceur (Praticante de Parkour) apto a enfrentar todos os obstáculos.
Como surgiu?
Os movimentos do Parkour são utilizados desde o inicio da humanidade, mas a arte na verdade foi criado nos anos 80 em Lisse, França. Iniciado por um grupo de crianças brincando, e resolveram levar a sério o que era o estilo militar de cruzar obstáculos. As crianças em questão cresceram e desenvolveram a arte. Dois deles são os conhecidos David Belle e Sebastien Foucan. Mas vários sites, praticantes e outros acreditam que a arte tenha sido criada por um grupo maior de pessoas, entre eles, os que adicionaram influências foram Yahn Hnautra, Daivd Balogne, Frederic Hnautra e Kazuma. Uma outra grande influencia, foi o pai de David Belle, com seu passado militar.
Parkour no Brasil.
A Primeira vez que se teve noticias de Traceurs no Brasil, foi no inicio de 2004, quando nasceram alguns grupos em Brasília e São Paulo, depois com o tempo, foram nascendo grupos em Curitiba, Florianópolis, João pessoa e por todo resto do país.
Em Brasília é onde se tem noticia da maior cena ativa de Parkour, com cerca de 20 praticantes ativos, treinos fixos, e uma equipe de alto nível técnico a frente dos treinamentos. Em São Paulo os praticantes são em numero menor, mas não perde o nível técnico dos praticantes.
(Esses dados já foram superados).
Dificuldades.
Sendo um esporte que usa os obstáculos urbanos, os Traceurs no Brasil enfrentam o problema dos seguranças e policiais. É difícil um policial que vê uma pessoa pulando muros de 2 metros, com um simples toque, passando por cercas, grades, pulando de um telhado pro outro, e todas as outras coisas que fazem do Parkour um esporte intenso, entender que ele está praticando um esporte, uma disciplina atlética, que estimula a mente, cria resistência física, velocidade, e o mais importante seguindo uma filosofia de treinamento.
Traceurs são freqüentemente confundidos com marginais, pedidos que se retirem mesmo de locais públicos por policiais, sem falar nos seguranças de prédios, e áreas comerciais. Mas vale lembrar também que em muitos lugares os seguranças e policias perguntam apenas o que esta acontecendo, pede que tomem cuidados, e liberam pra continuar, muitos deles ate ficam admirados e elogiam os movimentos dos praticantes.
Minha Visão Sobre:
Entendo o Parkour como a necessidade do homem voltar a se integrar com o meio no qual ele vive e se movimentar de acordo com as possibilidades naturais do seu corpo. Digamos que seria a volta do homem a seu estado Hominída.
Graças às facilidades dos meios de locomoção moderna, o homem esqueceu de como explorar fisicamente seu corpoe de como tornar a utilizar o meio onde vive harmoniosamente. O Parkour é uma forma de subversão física ao sedentárismo moderno, uma forma de subversão filosófica, antropológica e geográfica. Não há limites para um Traucer. Ele toma a cidade como parte dele e se utiliza dela.
Outra característica fundamental, é a autônomia de cada Traucer. Pois no Parkour não temos mestres, guias, ou qualquer outra forma de hierarquia. Cada Traucer é responsável por si mesmo e não há competição. É como ser fosse a mistura do esporte com a filosofia da liberdade.
O Parkour não é andar a cair de telhados, fazer saltos "malucos" ou impressionar as pessoas à nossa volta. O Parkour vive dentro de cada um de nós.
Mais informações e vídeos:
http://videolog.click21.com.br/videolog/vdl_index.php?user=esquilo
http://www.parkourpt.com/parkour/
http://www.davidbelle.com/
http://www.parkour.com/
Thursday, October 13, 2005
Chão batido em mortalha.
De concreto e de asfalto.
Necrópolis.
Nenhum ciclone sopra aqui.
Necrópolis, cidade ossário!
Fervilhante de mortos vivos,
Mortos vestidos, envergando gravatas que balaçam,
Esvoaçando com o vento brando.
Necrópolis.
Nenhuma Tempestade.
Apenas garoa fina...
Que molha asfalto e telefones públicos.
Necrópolis cidade ossário!
Cheia de rostos inexpressivos.
Ninguém grita.
Apenas sussurram, em telefones celulares minúsculos.
Cadáveres atarefados transitam pelas vias públicas,
Engolidos pelo concreto dos arranha-céus.
Tudo está tão calmo.
Na televisão rostos plástificados,
Que convidam para a grande feira moderna.
"Nós que aqui estamos, por vós esperamos"
Não há ciclones, tempestades ou gritos.
Apenas o sossego da sepultura onipresente.
Ah! Essa cidade túmulo,
Cemitério onde repousa no piche o último sabiá laranjeira.
O mesmo asfalto que cobre o sabiá, gastou meus sapatos.
Não posso mais viver aqui entre os mortos.
Preciso ir para um lugar onde eu possa andar descalço.
Um lugar onde eu possa ser ciclone, e tempestade, e grito!
Tuesday, October 11, 2005
Tuesday, September 27, 2005
Friday, September 23, 2005
E mais: a seus olhos o sagrado aumenta à medida que a verdade descresce e a ilusão cresce, a tal ponto que, para ele, o cúmulo da ilusão fica sendo o cúmulo do sagrado."
Feuerbach.
"No mundo realmente invertido, a verdade é um momento do que é falso"
Guy Debord.
Tuesday, September 06, 2005
O Imbecil Especializado
"Continuamos a desperdiçar tanto tempo e energia como os que eram necessários antes da invenção das máquinas; nisto fomos idiotas, mas não há motivo para que continuemos a ser".
Bertrand Russel
Cada vez mais trabalhamos com o cérebro e menos com os braços. Essa mudança está ocorrendo, principalmente, pelas seguintes razões:
Novas fontes de energia
Novas divisões do trabalho
Novas dimensões do poder
Que trazem consigo um novo modo de ver o progresso e o mundo.
Na metade do século XVIII nasce um novo movimento, o racionalismo, que confia na razão humana para a solução dos problemas, em contraposição a soluções através de um enfoque emotivo, religioso ou fatalista.
De Masi, afirma que vivemos em uma sociedade que ele chama de pós-industrial, onde o homem é apenas mais um elemento produtivo, não há distribuição igualitária do poder, do saber e do trabalho e uma verdadeira obsessão consumista faz o homem um autômato sem tempo para desenvolver-se como um todo.
Ao constatar que trabalhamos hoje, de forma tão primitiva como se fazia muito antes do surgimento da indústria e de que nossas horas de lazer são mais uma compensação pelas horas trabalhadas do que verdadeiramente lazer, o sociólogo propõe a teoria do ócio criativo. Aqui, "ócio" não significa preguiça, sedentarismo ou alienação. Talvez a melhor analogia que possa ser dada para exemplificar, seja a do poeta deitado na rede, compondo mentalmente seus versos.
O ócio criativo significa, então, um exercício do sincretismo entre atividade, lazer e estudo, propondo ao homem que ele se desenvolva em todas as suas dimensões.
O século XVIII é conhecido como o "século das luzes"; é nesse século que um grupo de pessoas cultíssimas decidem transmitir o saber que possuem para aqueles que não sabem, por meio de advento da enciclopédia. Portanto, o que os inspira é a vontade de permitir, a quem quer que possua tais livros, reproduzir um universo tecnológico que até então era um patrimônio restrito aos iluminados.
A consciência de que a sociedade mudou só aflora em torno de 1850. Por muito tempo a mudança é percebida apenas em partes pelos estudiosos. É então que se começa a falar não mais somente de indústrias, mas de "sociedade industrial", e percebe-se a globalidade da mudança de época que acabou de acontecer.
No final do século XIX e início do século XX, para os católicos, o trabalho é uma sentença condenatória, como reafirmará a Rerum Novarum, em 1891. Para os liberais, é uma disputa mercantil.
As teorias sociais dessa época se diversificam. De um lado, encontram-se a teoria e o cristianismo, baseados no medo do conflito. De outro, a teoria marxista, fundada, ao contrário, na esperança da revolução.
A Rerum Novarum intervém tardiamente nesse debate, porque é a teoria de maior difusão entre as massa católicas do final do século XIX e início do século XX. Essa massa católicas, impregnadas de Rerum Novarum, tinha ouvido em todas as igrejas que estavam convencidas de que tinham o dever de sofrer em silêncio e trabalhar. Tenha-se presente que as massas que imigraram para a América provinham sobretudo de todos os países católicos.
A Rerum Novarum é equânime em seu ódio contra liberais e socialistas. "Esta conversão da propriedade particular em propriedade coletiva, tão preconizada pelo socialismo, não teria outro efeito senão tomar a situação dos operários mais precária, retirando-lhes a livre disposição do seu salário e roubando-lhes, por isso mesmo, toda a esperança e toda a possibilidade de engrandecerem o seu patrimônio e melhorarem a sua situação".
Conclusão:
"A proposta do ócio criativo como uma ferramenta para o aprimoramento pessoal fora do trabalho é uma das mais belas teorias já produzidas, cuja efetivação é possível, pois cada vez mais nos deparamos com a necessidade de compor o nosso conhecimento e desenvolvimento pessoal com atividades que agreguem valor, prazer e qualidade de vida, pois como diz Domenico - " A criatividade não é só idéias, é unir fantasias com concretizações."
"Ganhar a vida trabalhando não é suficiente. O trabalho tem de permitir também viver a vida."
Pela Abolição do Trabalho Mecânizador.
Friday, September 02, 2005
O livro indecifrável na tua prateleira.Os gritos de qualquer paspalho como eu. Pedaços da mesma mentira. Servindo a Industria onde deus dormiu ou DEUS MORREU. Pela manhã o sonho pelo ralo. O espelho Arranca o teu Nome Com Sabão. Te fizeram decorar TEUS NOMES, te fizeram (desenhar) um coração. A indústria da tua realidade te quer pra bater cartão # p -e -d -a -ç -o -s da mesma mentira pedaços da mesma............................... ((((((ILUSÃO)))))).